Antes da clínica
Formei-me em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás em 2017. Antes da especialização clínica formal, e ao longo dos anos seguintes, passei três anos em grupos de estudos de filosofia clássica — particularmente dialética hegeliana, mas com travessias pelos gregos, por Kierkegaard, por Foucault.
Esses três anos não foram acidente. Eu já tinha o diploma. Já podia atender. Mas alguma coisa, na maneira como a graduação me ensinou a olhar para o sofrimento humano, parecia incompleta — não errada, mas parcial. Faltava densidade. Faltava espessura. Faltava paciência para reconhecer que nenhum comportamento adulto se explica por uma camada só.
Foi na filosofia que aprendi a escutar em camadas. A perceber que toda fala carrega, ao mesmo tempo, o que se diz, o que se nega, e o que se afirma por não dizer. Que cada sintoma é, simultaneamente, queixa e defesa. Que o paciente que racionaliza está, no mesmo gesto, escondendo e revelando — e que o trabalho clínico é separar essas duas operações sem dissecar a pessoa que faz as duas.
A TCC, depois
Em 2024 me especializei em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo IPOG. Não foi mudança de rota — foi convergência. A TCC, bem feita, é a tradução clínica mais rigorosa que conheço de algo que a filosofia já vinha me ensinando: o pensamento humano não é fluxo livre. É arquitetura. Tem padrão. Tem estrutura observável. E estrutura observável é estrutura modificável.
Mas TCC bem feita não é TCC manualizada. A versão de manual trata o paciente como variável a ser ajustada num modelo — identifica pensamento automático, questiona, propõe alternativa, mede resultado. Para muita gente, isso funciona. Para quem aprendeu a se traduzir a vida inteira, falha — porque o paciente entrega de bandeja os pensamentos automáticos esperados, executa as tarefas, relata melhora, e nada muda por dentro. O processo virou mais uma performance.
O que faço é diferente. Uso TCC como instrumento dentro de uma escuta mais larga. O método dá estrutura — sei o que estou fazendo, o paciente sabe onde estamos, há indicadores observáveis. A filosofia dá a escuta — a paciência para reconhecer que o pensamento automático verbalizado é, com frequência, a versão palatável de um pensamento subjacente que o paciente ainda não consegue dizer.
"Não acredito em terapia que simplifica. Acredito em terapia que destrincha — que respeita a complexidade do paciente sem se perder nela."
Trajetória clínica
Atuei como psicólogo em contextos variados nos últimos anos — clínica institucional, contextos de trabalho, supervisão de profissionais em formação. Cada um me ensinou algo distinto sobre a relação entre o que uma pessoa diz que sofre e o que está, de fato, em jogo.
Hoje, dedico-me cada vez mais à clínica como espaço primário de trabalho. Atendo online, com estrutura clara, agenda fechada, e critério explícito sobre quem consigo ajudar bem. Sigo estudando — porque atender bem exige seguir estudando, e porque me interessa de verdade. A filosofia continua sendo leitura semanal. A TCC, supervisão e atualização continuadas.
Por que esse público, especificamente
Trabalho com adultos que passaram a vida se ajustando, se dobrando, se traduzindo para caber. Esse recorte não foi escolha de mercado — foi reconhecimento. São pacientes que chegam já sabendo muito sobre o próprio sofrimento, que leram, tentaram, e precisam de algo diferente do que terapia genérica oferece.
Precisam de alguém que entenda a inteligência como camada e a defesa intelectual como reflexo — sem patologizar uma nem deixar passar a outra. Que reconheça que saber sobre o problema e estar livre do problema são duas coisas diferentes, separadas por uma travessia que não cabe em livro nem em curso, e que exige um interlocutor real.
Esse é o trabalho. Não é fácil — pra mim nem pra quem chega. Mas é, na minha experiência, o que mais transforma. Justamente porque exige presença das duas partes, sem atalho.